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06/12/2007

Metodologia Camponês a Camponês: Testemunhos da CONFRAS

Linea 05/12/2007

Entrevista do CONFRAS sobre o Programa Camponês a Camponês (PCaC)

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05/12/2007

Entrevista do CONFRAS sobre o Programa Camponês a Camponês (PCaC)

 

J. Francisco Ramos, Gerente de CONFRAS  Celeo Ramón Bustillo, Colaborador da VOLENS na CONFRAS, trabalhando com a Metodologia de Camponês a Camponês
 


 

O que é, em poucas palavras, a metodologia Camponês a Camponês ?

É um conjunto de técnicas e ferramentas agro-ecológicas que se utiliza para a transferência de conhecimentos e experiências entre agricultores.

Entre as técnicas se consideram :
  • os diagnósticos ;
  • o planejamento e organização de fazendas ;
  • a experiência camponesa ;
  • as demonstrações ;
  • as oficinas ;
  • as visitas e intecâmbios ;
  • assembléias ;
  • e outras...

Entre as ferrmentas se encontram :

  • Os mapas e croquis ;
  • Os murais fotográficos ;
  • Os meios audiovisuais.

 

 
Membros do PCaC da Confras trabalhando
em um cultivo demonstrativo

Quais são as principais características da metodologia ?

Reforça o espírito criativo e a capacidade de transmissão de conhecimentos entre camponeses. Leva em conta a realidade local, incentiva a produção com recursos próprios dos agricultores, reduzindo a dependência de recursos externos. Quer dizer que, se vamos introduzir uma proposta tecnológica, nos perguntamos :

  • resolve uma necessidade percebida ?
  • ajusta-se à realidade local ?
  • utiliza os recursos da fazenda ou da comunidade ?
  • é de baixo risco ?
  • sua aplicação é simples ?
  • que impacto ecológico pode ter ?
  • tem vantagens econômicas ?

A metodologia CaC está centrada nas pessoas, envolvendo diretamente os sujeitos no processo ensino-aprendizagem. A relação entre os técnicos e agricultores é horizontal.

O segredo é a comunicação entre os camponeses. Parte-se da premissa de que todos sabemos algo que podemos compartilhar. A transmissão de experiências se realiza de maneira prática. Parte-se do agricultor e de sua propriedade, de suas tentativas e experiência e dos resultados concretos que obteve. Por isso, os participantes do programa de camponês a camponês devem ser agricultores e possuir um terreno que cultivem.
 
Começa-se a implementar uma tecnologia devagar e aos poucos. Trata-se de apresentar uma idéia a um grupo e não cem idéias a um agricultor.


Quando, como e por que o CONFRAS adotou essa metodologia ?


A partir do ano de 1991 a CONFRAS iniciou um programa de assistência técnica agropecuária para os produtores e teve, então, necessidade de contratar profissionais de nível técnico ou acadêmico para essa responsabilidade. Nossas avaliações de resultados foram nos mostrando vários problemas: escassa cobertura, falta de geração de mudanças na forma de produção, produtores insatisfeitos com a ajuda recebida, falta de idoneidade do pessoal contratado. Percebemos que a formação e transferência de conhecimentos entre técnico e produtor era vertical. O profissional técnico sabe e, portanto, passa seus conhecimentos a quem não sabe, ainda que, no fundo, exista uma contradição: os profissionais técnicos poucas vezes trabalharam a terra, enquanto o agricultor o fez durante toda a sua vida.

No ano de 1999, realizou-se uma avaliação externa do CONFRAS, que recomendou uma mudança na forma de assistir tecnicamente aos agricultores na sua atividade produtiva, dado que os resultados não eram satisfatórios. Essa avaliação sugeriu :
a) a criação de uma Rede de promotores voluntários do desenvolvimento rural ;
b) explorar as vantagens da metodologia de camponês a camponês, principalmente as experiências desenvolvidas pela UNAG na Nicarágua (União Nacional de Agricultores e Pecuaristas).

Em abril e maio de 2002, a pedido da VOLENS, recebeu-se a visita dos técnicos da UNAG para intercambio de experiências tecnológicas e metodológicas do Programa CAC Nicarágua, assim como para a elaboração de um plano de acompanhamento. Esse encontro assentou as bases do atual Programa CaC na CONFRAS que permaneceu vinculado às experiências da UNAG, realizando intercambios e contando com o assessoramento de produtores e técnicos.

Querem conhecer em maiores detalhes a experiência da UNAG com seu Programa CaC? Confiram aqui.

Quem são os beneficiários do CONFRAS? Quantos e de onde são ?

Estão participando 544 pequenos agricultores (331 homens e 213 mulheres), em sua maioria sócios das cooperativas de quatro Federações da Confederação: FECANM, FENACOA, FECORACEN E ASID. O programa está atuando na zona Oriental nos Departamentos de Usulután (municípios: Jiquilisco e Jucuarán) e Morazán (municípios: Torola, San Fernando, Perquín, Jocoaitique e Cacaopera). Na Zona Central no Departamento de la Libertad e na Zona Ocidental nos departamentos de Sonsonate (municípios: Izalco e Nahuizalco) e Ahuachapán (municípios: Ahuachapán, Guaymango e San Francisco Menéndez).

 
Os beneficiados são pequenos (as) produtores (as)


Existem líderes entre os participantes do programa ?

65 produtores estão em processo de formação para atuar nos níveis de referentes ou promotores. Esse grupo de produtores continua normalmente em suas atividades de CaC mas, por seus conhecimentos avançados e qualidades pessoais, podem ser selecionados para dirigir grupos locais de maneira voluntária. O referente é o produtor que, pelo conhecimento das técnicas e ferramentas da CaC que possui, é capaz de apoiar o processo de capacitação com outros produtores. O promotor tem um nível de conhecimento mais avançado da metodologia e, portanto, é capaz de coordenar o trabalho do PCAC com vários grupos em uma região. Em nosso trabalho, o promotor tem uma remuneração, é um empregado. No PCAC contamos com três promotores remunerados e que foram formados no programa, mas existem outros produtores que já têm o perfil de promotores.

Quais são as atividades que fazem parte do programa ?

As atividades do programa cobrem uma variedade de ações que se podem sintetizar nas seguintes :

a) Manejo e conservação da fertilidade do solo. Essas práticas se referem à utilização de técnicas de conservação de solo e água, principalmente barragens em nível, acéquias (canais de irrigação), cobertura da terra com resíduos orgânicos e suspensão de queimadas. Também se implementa ao menos uma alternativa orgânica para fertilização de lavouras em sua fazenda, preparando e usando adubos orgânicos sólidos e líquidos.

b) Manejo integrado de pragas. Um grupo de 60 agricultores está utilizando alternativas orgânicas para controlar pragas em suas lavouras, preparando e usando ao menos um fungicida, inseticida e repelente orgânico.

 

Um produtor preparando um inseticida natural

c) Diversificação de plantações. Além do cultivo tradicional de milho, feijão e sorgo negro, os agricultores estão semeando outras culturas como: Banana, guinéia (forragem), hortaliças, abacaxi e árvores frutíferas; sem descuidar do reflorestamento, de acordo com o tamanho das terras e do planejamento da plantação préviamente efetuado.

d) Sementes nativas. Este é um dos principais desafios que os produtores estão enfrentando: a conservação e melhoramento das sementes nativas. Ao menos 266 produtores estão trabalhando com sementes de milho crioulo.

e) Algumas técnicas menos desenvolvidas, até agora, são práticas silvi-pastoris e a alimentação do gado em época de sêca.

f) Técnicas de formação. A metodologia PCAC é bastante rigorosa na aplicação de técnicas de capacitação, de modo que os produtores participam constantemente de diferentes tipos de eventos. Oficinas e cursos experimentais, visitas e intercambios, exposições e feiras de produtos, encontros regionais e nacionais.

 
Reunindo-se no terreno


Todos utilizam a metodologia CaC ? Alguns deixaram de adotá-la? Por que ?


A metodologia de CaC não obriga ninguém a aprender ou a estar dentro do programa. Faz-se um trabalho de promoção e informação sobre o programa e os produtores interessados se organizam em pequenos grupos com os quais se avança no desenvolvimento da metodologia. Isto significa que o nível de conhecimento alcançado por cada produtor depende de seu interesse e dedicação. No quadro a seguir se apresenta o número de participantes em cada atividade do programa.

 

Aplicação de técnicas da metodologia de camponês a camponês Produtores utilizando as técnicas
  Total Homens Mulheres
1 Em processo de formação para referentes e promotores 65 48 17
2 Conservação de solos  544 331 213
3 Fertilização de solos 119 68 51
4 Manejo integrado de pragas. 60 45 15
5 Diversificação de plantações. 415 267 148
6 Uso de sementes nativas 266 182 84
7 Práticas silvi-pastoris 21 17 4
8 Alimentação na seca 15 12 3

Uma breve leitura desses dados nos mostra que, dos 544 participantes ativos do programa, nem todos adotam todas as técnicas da metodologia. Os mais avançados dominam e aplicam 4 ou 5 técnicas e os que têm mais limitações adotam ao menos uma. No caso da conservação de solos, por exemplo, com o elevado número de 544 participantes, existem várias práticas: A não queima e utilização de cobertura de resíduos orgânicos, as barreiras vivas e mortas, as acéquias (canais de irrigação) de ladeira e outras. Para os que aplicam uma parte das técnicas, esta é, pelo menos, a não queima e a utilização de cobertura orgânica.

Existem instâncias intermediárias ?

A metodologia CaC é principalmente participativa, sendo o grupo o primeiro nível, podendo ser criados estágios intermediários, em zonas ou departamentos, de acordo com o crescimento do número de membros. Na CONFRAS ainda não existem os níveis intermediários, mas existe a Comissão nacional de Camponês a Camponês (CNCAC), integrada por delegados dos grupos das diferentes zonas. Na CNCAC se acordam as políticas do programa e também se orienta o planejamento cooperativo.

Há outros projetos agropecuários além do programa CaC ?

A CONFRAS conta com outros projetos de assistência técnica para o desenvolvimento da produção agropecuária em cooperativas que não se baseiam nessa metodologia. No entanto temos observado que exerce uma forte influencia sobre técnicos e produtores para a aplicação de suas técnicas. Exemplos:

  No Baixo Lempa se executou, por dois anos, um projeto para o desenvolvimento agropecuário. Quando terminado, vários produtores pediram para ser apoiados com o PCAC;

  Na zona sul do Departamento de San Miguel, atende-se a quatro cooperativas com um projeto de recuperação de cultivos, por terem sido grandemente afetadas pela tormenta tropical Stan no ano de 2005. O projeto tem um componente de gestão de riscos e outro de indução ao uso de insumos orgânicos e, com a finalização do projeto, seus beneficiários tambem estão solicitando que se continue apoiando-os com a metodologia do PCAC. Essas experiencias nos demonstram que a Metodologia CaC é atrativa para o produtor e tem um grande potencial para desenvolver-se amplamente no contexto do CONFRAS.

Quais foram, para a CONFRAS, os maiores beneficios da metodologia CaC, comparada com as metodologias tradicionais ?

a) A metodologia CaC, na medida em que faz uso dos recursos próprios e aumenta as potencialidades dos produtores para o desenvolvimento da agricultura, implica no investimento de menos recursos econômicos. Mesmo com recursos limitados é possível atender um número maior de agricultores. Mas os benefícios do programa estão, principalmente, em função dos próprios produtores.

b) Conseguiu-se apoiar um número significativo de pequenos produtores e produtoras, que estão melhorando suas lavouras com a aplicação de técnicas amigaveis com o meio ambiente e produzem alimentos saudáveis para consumo familiar.

c) Depende-se menos de insumos externos contaminantes, prejudiciais à saude e ao ecossistema.

d) Favoreceu-se o resgate, melhoramento e utilização de sementes nativas, ante a crescente proliferação e práticas mercantilista de sementes híbridas (de um só ciclo produtivo) e agora, ante a invasão de sementes transgênicas que ameaça a soberania dos povos sobre a terra e a alimentação.

 
Trocando sementes

e) Gera consciência entre os produtores da necessidade de conservação do meio ambiente mas, principalmente, induz à prática de técnicas conservacionistas em suas propriedades.

f) A prática da solidariedade entre os produtores, em uma sociedade que fomenta muito o individualismo, a competição e o egoísmo.

E quais são as maiores dificuldades ?

a) A metodologia CaC deve lutar contra uma cultura arraigada de uso incontrolado de produtos químicos, favorecida pela propaganda desmedida que super valoriza os beneficios desses produtos comerciais.

b) Em El Salvador, desde os anos 80, a agricultura não conta com políticas públicas que a favoreçam, principalmente para os pequenos agricultores que foram abandonados a sua própria sorte. A livre competição a que está sujeito o produtor, não favorece as práticas amigáveis com o meio ambiente. Ao contrário, justificam-se os rendimentos máximos, independentemente dos danos que se cause ao solo, aos recursos hídricos , à saúde humana e às espécies animais.

c) A CONFRAS contou até agora com escassos recursos para o desenvolvimento do programa. Ainda que seja importante que o produtor enfrente as dificuldades inerentes ao início de um programa com esforço próprio, agora, que se estabeleceram bases consistentes e se acumulou experiencias interessantes, é fundamental a disponibilidade de um financiamento adequado para a ampliação do programa a nível nacional.

As fotografias do PCaC da Confras podem ser encontradas na galeria.


Entrevista :
Yves Bartholomé
Entrevistados :
Celeo Ramón Bustillo, Colaborador da VOLENS na CONFRAS sobre Metodología de Camponês a Camponês
J. Francisco Ramos, Gerente da CONFRAS


Tradução realizada por Carmen Baer